terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Guimarães: Capital Europeia da Cultura

Para quem não conhece Guimarães, para quem já por lá passou: para quem vive só de recordações e não perde oportunidade de as repetir ainda que noutro contexto... 


Por Eduardo Jorge Duque, professor da Universidade do Minho

Vejo a Capital Europeia da Cultura como um encontro de culturas. Por si só, esta interpretação é já um desafio, na medida em que, como encontro que é, implica conhecimento, abertura e respeito pelo outro, sendo este o lugar por excelência de questionamento do sujeito.

Num momento em que a Europa, depois de universalizar o seu modelo de vida em diferentes padrões de culturas, se nos afigura desgastada, esvaziada de valores e sem identidade, dando a impressão de que chegou ao seu fim, poderemos descobrir neste encontro de culturas uma plataforma que ajuda a construir uma habitação sólida e solidária, aonde se cruza o trabalho local com o nacional e internacional, como quem deseja arejar e enriquecer a sua casa. Foi isso que vimos no dia da abertura da Capital Europeia de Guimarães, que, com o tom solene do Maestro Rui Massena, agregou instrumentos e pessoas locais e de além fronteiras, tudo numa mesma harmonia.

Oswald Spengler viu nas grandes expressões culturais como que uma espécie de lei natural ao referir que existe um momento de nascimento, crescimento gradual, desenvolvimento, lento empobrecimento, envelhecimento e, como consequência natural deste processo, surgiria a morte. Para este autor, o Ocidente chegou ao seu fim, como uma pessoa que teve o seu tempo. Ora, poderíamos perguntar, como chegamos até aqui? Como cavamos a nossa própria sepultura? Muitos autores apontam o dedo ao vago exercício da razão crítica, ao culta da técnica, à relatividade, já que deixou de haver qualquer verdade substantiva que não tenha sido impugnada, facto que levou G. Steiner a invocar a “nostalgia do Absoluto”. O homem moderno libertou-se de tutelas, de referências não porque se tenha decidido libertar da Igreja, mas porque as perdeu de vista, ficando, como consequência, cada vez mais só.

A Capital da Cultura ao potenciar as diferentes expressões culturais está, por um lado, a não permitir que se perca o acervo de valores comuns adquiridos ao largo de séculos de história de vitórias, de sangue e de lágrimas de um povo, por outro lado, está a revitalizar as estruturas locais, a permitir que se partilhe o que de melhor se faz, construindo comunidades sólidas, que acreditam que é possível voar mais alto para superar qualquer crise de identidade. Estou certo de que Portugal precisa deste ânimo para não sucumbir à certidão de Spengler.  

Ora, se o Ocidente está em crise e se, em parte, conhecemos a sua causa, podemos apontar-lhe o processo de cura, que passará, a meu ver, pela adesão livre às propostas de Cristo, que se revelou um Deus próximo das nossas vulnerabilidades. O problema é que, em muitas circunstâncias, é inconveniente, ou pouco aconselhável, fazer-se uma qualquer referência a Deus. Sabemos que a este respeito existe um falso argumento que confunde o secularismo com a imparcialidade ou neutralidade. Por que é que a exclusão da referência a Deus, à religião ou à Igreja é mais neutral do que a sua inclusão? Deixando de lado toda a polémica subjacente a esta questão, interessa-nos aqui apresentar a Igreja não exclusivamente como comunidade crente, mas como comunidade que oferece uma tradução contemporânea da mensagem evangélica. E neste contexto, encontramos a Igreja a dialogar com a CEC, propondo iniciativas como o roteiro religioso, aonde se disponibiliza material que auxilia a interpretar a arte religiosa, ou o Átrio dos Gentios, que se propõe ser um espaço de diálogo entre crentes e não crentes.

A Igreja, neste diálogo aberto e concreto com a CEC, tem a oportunidade de lançar sementes do Reino, rasgar horizontes de felicidade, comunicar sinais de esperança, enfim, ser uma realidade concreta no espaço das relações humanas. A Igreja, tal como outrora - porque trás em si inscrita o diálogo das civilizações -, tem que continuar a ser, também hoje, fator primário de unidade entre povos e culturas. Daí que a CEC não é estranha à Igreja, bem pelo contrário, já que, tanto a Igreja como CEC, são genética e culturalmente universais.

Seria desejável que a CEC, na programação que tem pela frente, não se fechasse - e não o tem feito -, em conteúdos de superficialidade, de índole niilista, mas que fizesse propostas culturais verdadeiramente humanas, esperançadas, que fale da frescura da vida, de forma a que não construa uma imagem de uma sociedade, neste caso concreto a partir de Guimarães, enferma, sem memória, perdida no tempo ou sem sentido.

Seria bom que, finda a programação da CEC, se continuasse abrir horizontes, se encontrassem pessoas motivadas para a cultura, se entendesse os tambores, pianos, trompetes, fagotes e violinos, se prolongasse as tertúlias à procura da verdade, se veja películas na praça, se trabalhe o artesanato, se valorize os escritores e os poetas (…), se procure ver as coisas tal como são. Assim, a cultura, a que se deseja que a Capital Europeia da Cultura evoque, deixa de ser, como é tantas vezes no presente, meio de evasão e símbolo de decadência, para passar a mobilizar a inteligência e purificar o olhar.



4 comentários:

FireHead disse...

Eu cheguei a conhecer Guimarães e gostei imenso. Cheguei a estar uns dias em Ronfe, não sei se conheces...

Beijinhos.

Mariam disse...

Fui lá pouquíssimas vezes (só me estou a recordar de duas) e quase não vi nada pois a minha visita restringia-se a visitar uns familiares...

Abraço em Cristo!

FireHead disse...

Já eu não posso dizer o mesmo. Estive lá, mas neste preciso momento já não pode considerar-se como algo que foi pelos melhores motivos. O tempo passou e entretanto o que dantes era bom, hoje já deixou de o ser. Enfim, faz parte da vida. :)

Beijinhos.

Mariam disse...

Então? Depois poderás explicar... por outra via...

Um santo e feliz dia!