quarta-feira, 7 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Penitências...
A propósito da mortificação quaresmal: http://www.opusdei.pt/art.php?p=16008
Para quem, como eu, se sente a caminhar a passos de caracol: Cor Jesum Sacratissimum, miserere nobis. É Ele o divino ascensor.
Para quem, como eu, se sente a caminhar a passos de caracol: Cor Jesum Sacratissimum, miserere nobis. É Ele o divino ascensor.
quinta-feira, 1 de março de 2012
A maturidade afectiva
Por Rafael Llano
Cifuentes in Quadrante
No nosso mundo altamente técnico e cheio
de avanços científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas
do coração. “Vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso
progresso técnico e científico e a imaturidade quase infantil no que diz
respeito aos sentimentos humanos”
A afetividade não está por assim dizer
encerrada no coração, nos sentimentos, mas permeia toda a personalidade.
Estamos continuamente sentindo aquilo que pensamos e fazemos. Por isso, qualquer distúrbio da vida
afetiva acaba por impedir ou pelo menos entravar o amadurecimento da
personalidade como um todo.
Observamos isto claramente no fenômeno de fixação na adolescência ou na
adolescência retardada. Como já anotamos, o adolescente caracteriza-se por umaafetividade
egocêntrica e instável; essa característica, quando não superada na natural
evolução da personalidade, pode sofrer uma fixação, permanecendo no adulto:
este é um dos sintomas da imaturidade afetiva.
É significativo verificar como essa imaturidade parece ser uma característica
da atual geração. No nosso mundo altamente técnico e cheio de avanços
científicos, pouco se tem progredido no conhecimento das profundezas do
coração, e daí resulta aquilo que Alexis Carrel, prêmio Nobel de Medicina,
apontava no seu célebre trabalho O homem, esse desconhecido: vivemos hoje o drama de um desnível gritante entre o fabuloso progresso técnico e científico
e a imaturidade quase infantil no que diz respeito aos sentimentos humanos.
Mesmo em pessoas de alto nível intelectual, ocorre um autêntico analfabetismo afetivo: são indivíduos truncados,
incompletos, mal-formados, imaturos; estão preparados para trabalhar de forma
eficiente, mas são absolutamente incapazes de amar. Esta desproporção tem
conseqüências devastadoras: basta reparar na facilidade com que as pessoas se
casam e se descasam, se juntam e se separam. Dão a impressão de reparar apenas
na camada epidérmica do amor e de não aprofundar nos valores do coração humano
e nas leis do verdadeiro amor.
Quais são, então, os valores do verdadeiro amor? Que significado tem essa
palavra?
O amor, na realidade, tem um significado polivalente, tão dificil de definir
que já houve quem dissesse que o amor é aquilo que se sente quando se ama, e,
se perguntássemos o que se sente quando se ama, só seria possível responder
simplesmente: Amor. Este círculo vicioso deve-se ao que o insigne médico e
pensador Gregório Marañon descrevia com precisão: O amor é algo muito complexo
e variado; chama-se amor a muitas coisas que são muito diferentes, mesmo que a
sua raiz seja a mesma.
A MATURIDADE NO AMOR
Hoje, considera-se a satisfação sexual autocentrada como a expressão mais
importante do amor. Não o entendia assim o pensamento clássico, que considerava
o amor da mãe pelos filhos como o paradigma de todos os tipos de amor: o amor
que prefere o bem da pessoa amada ao próprio. Este conceito, perpassando os
séculos, permitiu que até um pensador como Hegel, que tem pouco de cristão,
afirmasse que a verdadeira essência do amor consiste em esquecer-se no outro.
Bem diferente é o conceito de amor que se cultua na nossa época. Parece que se
retrocedeu a uma espécie de adolescência da humanidade, onde o que mais conta é
o prazer. Este fenômeno tem inúmeras manifestações. Referir-nos-emos apenas a
algumas delas:
- Edifica-se a vida sentimental sobre uma base pouco sólida: confunde-se
amor com namoricos, atração sexual com enamoramento profundo. Todos conhecemos
algum don Juan: um mestre na arte de conquistar e um fracassado à hora da
abnegação que todo o amor exige. Incapazes de um amor maduro, essas pessoas
nunca chegam a assimilar aquilo que afirmava Montesquieu: É mais fácil
conquistar do que manter a conquista.
- Diviniza-se o amor: A pessoa imatura - escreve
Enrique Rojas - idealiza a vida afetiva e exalta o amor conjugal como algo
extraordinário e maravilhoso. Isto constitui um erro, porque não aprofunda na
análise. O amor é uma tarefa esforçada de melhora pessoal durante a qual se
burilam os defeitos próprios e os que afetam o outro cônjuge <...>. A pessoa imatura converte o outro num absoluto. Isto costuma pagar-se caro. É natural que ao longo do namoro
exista um deslumbramento que impede de reparar na realidade, fenômeno que Ortega y Gasset
designou por doença da atenção, mas também é verdade que o difícil convívio
diário coloca cada qual no seu lugar; a verdade aflora sem máscaras, e, à
medida que se desenvolve a vida ordinária, vai aparecendo a imagem real.(E.
Rojas)
- No imaturo, o amor fica cristalizado, como diz Stendhal, nessa fase dedeslumbramento,
e não aprofunda na versão real que o convívio conjugal vai desvendando. Quando
o amor é profundo, as divergências que se descobrem acabam por superar-se;
quando é superficial, por ser imaturo, provocam conflitos e freqüentemente
rupturas.
- A pessoa afetivamente imatura desconhece que os sentimentos não são estáticos, mas dinâmicos. São suscetíveis de melhora e devem ser cultivados no viver
quotidiano. São como plantas delicadas que precisam ser regadas diariamente. O amor inteligente exige o cuidado dos detalhes pequenos e uma
alta porcentagem de artesanato psicológico .(E.Rojas)
A pessoa consciente, madura, sabe que o amor se constrói dia após dia, lutando por corrigir defeitos, contornar dificuldades, evitar
atritos e manifestar sempre afeição e carinho.
- Os imaturos querem antes receber do que dar. Quem é imaturo quer que
todos sejam como uma peça integrante da máquina da sua felicidade. Ama somente
para que os outros o realizem. Amar para ele é uma forma de satisfazer uma
necessidade afetiva, sexual, ou uma forma de auto-afirmação. O amor acaba por
tornar-se uma espécie de grude que prende os outros ao próprio eu para
completá-lo ou engrandecê-lo.
Mas esse amor, que não deixa de ser uma forma transferida de egoísmo, desemboca
na frustração. Procura cada vez mais atrair os outros para si e os outros vão
progressivamente afastando-se dele. Acaba abandonado por todos, porque ninguém
quer submeter-se ao seu pegajoso egocentrismo; ninguém quer ser apenas um
instrumento da felicidade alheia.
Os sentimentos são caminho de ida e volta; deve haver reciprocidade. A pessoa imatura acaba sempre
queixando-se da solidão que ela mesma provocou por falta de espírito de
renúncia. A nossa sociedade esqueceu quase tudo sobre o que é o amor. Como diz
Enrique Rojas: Não há felicidade se não há
amor e não há amor sem renúncia. Um segmento essencial da
afetividade está tecido de sacrifício. Algo que não está na moda, que não é
popular, mas que acaba por ser fundamental.
Há pouco, um amigo, professor de uma Faculdade de Jornalismo, referiu-me um
episódio relacionado com um seu primo - extremamente egoísta - que se tinha
casado e separado três vezes. No cartão de Natal, após desejar-lhe boas festas,
esse professor perguntava-lhe em que situação afetiva se encontrava. Recebeu
uma resposta chocante: Assino eu e a minha gata. Como ela não sabe assinar, o
faz estampando a sua pata no cartão: são as suas marcas digitais. Este
animalzinho é o único que quer permanecer ao meu lado. É o único que me ama.
O imaturo pretende introduzir o outro no seu projeto pessoal de vida, em vez de
tentar contribuir com o outro num projeto construído em comum. A felicidade do
cônjuge, da família e dos filhos: esse é o projeto comum do verdadeiro amor. As
pessoas imaturas não compreendem que a dedicação aos filhos constitui um fator
importante para a estabilidade afetiva dos pais. Também não assimilaram a idéia
de que, para se realizarem a si mesmos, têm de se empenhar na realização do
cônjuge. Quem não é solidário termina solitário. Ou juntando-se a uma gatinha, seja de que
espécie for.
EDUCAR A AFETIVIDADE
Mais do que nunca, é preciso prestar atenção hoje à educação da afetividade dos
filhos e à reeducação da afetividade dos adultos. Uma educação e uma reeducação
que devem ter como base esse conceito mais nobre do amor que acabamos de
formular: aquele que vai superando o estágio do amor de apetência - que apetece
e dá prazer - para passar ao amor de complacência - que compraz afetivamente -
e abrir-se ao amor oblativo de benevolência - que sabe renunciar e entregar-se para conseguir o bem do outro.
O amor maduro exige domínio próprio: ir ascendendo do mundo elementar - imaturo
- do mero prazer, até o mundo racional e espiritual em que o homem encontra a
sua plena dignidade. Reclama que se canalizem as inclinações naturais
sensitivas para pô-las ao serviço da totalidade da pessoa humana, com as suas
exigências racionais e espirituais. Requer que se conceda à vontade o seu papel
reitor, livre e responsável. Pede que, por cima dos gostos e sentimentos
pessoais, se valorizem os compromissos sérios reciprocamente assumidos... Aaron
Beek, no seu livro Só o amor não basta, insiste repetidamente em que é necessária a determinação da
vontade para dar consistência aos movimentos intermitentes do coração: o mero
sentimento não basta.
O amor como dom de si comporta - diz o Catecismo da Igreja Católica - uma aprendizagem do domínio de si <...>. As alternativas são claras: ou o homem comanda e
domina as suas paixões e obtém a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna
infeliz. Esse domínio de si mesmo é um trabalho a longo prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um
esforço a ser retomado em todas as idades da vida.
Isto significa cultivar o amor. O maior de todos os amores desmoronar-se-á se não for
aperfeiçoado diariamente. Empenho este que, na vida diária, se traduz no
esforço por esmerar-se na realização das pequenas coisas, à semelhança do
trabalho do ourives, feito com filigranas delicadamente entrelaçadas cada dia,
na tarefa de aprimorar o trato mútuo, evitando os pormenores que prejudicam a
convivência.
A convivência é uma arte preciosa. Exige uma série de diligências: prestar
atenção habitual às necessidades do outro; corrigir os defeitos; superar os
pequenos conflitos para que não gerem os grandes; aprender a escutar mais do
que a falar; vencer o cansaço provocado pela rotina; retribuir com gratidão os
esforços feitos pelo outro... e, especialmente, renovar, no pequeno e no
grande, o compromisso de uma mútua fidelidade que exige perseverança nas menores exigências do amor..., uma
perseverança que não goza dos favores de uma sociedade hedonista e
permissivista, inclinada sempre ao mais gostoso e prazeroso.
O coração não foi feito para amoricos, dizíamos, mas para amores fortes. Osentimentalismo é para o amor o que a caricatura é para o rosto. Alguns parecem
ter o coração de chiclete: apegam-se a tudo. Uns olhos bonitos, uma voz meiga,
um caminhar charmoso, podem fazer-lhes tremer os fundamentos da fidelidade.
Outros parecem inveterados novelistas: sentem sempre a necessidade de estar
envolvidos em algum romance, real ou imaginário, sendo eles os eternos
protagonistas: dão a impressão de que a televisão mental lhes absorve todos os
pensamentos.
Precisamos educar o nosso coração para a fidelidade. Amores maduros são sempre
amores fiéis. Não podemos ter um coração de bailarina. A guarda dos sentidos -
especialmente da vista - e da imaginação há de proteger-nos da inconstância
sentimental, do comportamento volátil de um beija-flor...
Tudo isto faz parte do que denominávamos a
educação afetiva dos jovens e areeducação afetiva dos
adultos. João Paulo II a chama a educação para o amor como dom
de si: diante de uma cultura que «banaliza» em grande parte a
sexualidade humana, porque a interpreta e vive de maneira limitada e
empobrecida, ligando-a exclusivamente ao corpo e ao prazer egoístico, a tarefa
educativa deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual verdadeira e
plenamente pessoal. A sexualidade, de fato, é uma riqueza da pessoa toda -
corpo, sentimento e alma -, e manifesta o seu significado íntimo ao levar a
pessoa ao dom de si no amor.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
Guimarães: Capital Europeia da Cultura
Para quem não conhece Guimarães, para quem já por lá passou: para quem vive só de recordações e não
perde oportunidade de as repetir ainda que noutro contexto...
Por Eduardo Jorge Duque, professor da Universidade do Minho
Por Eduardo Jorge Duque, professor da Universidade do Minho
Vejo
a Capital Europeia da Cultura como um encontro de culturas. Por si só, esta
interpretação é já um desafio, na medida em que, como encontro que é, implica
conhecimento, abertura e respeito pelo outro, sendo este o lugar por excelência
de questionamento do sujeito.
Num momento em que a Europa, depois de
universalizar o seu modelo de vida em diferentes padrões de culturas, se nos
afigura desgastada, esvaziada de valores e sem identidade, dando a impressão de
que chegou ao seu fim, poderemos descobrir neste encontro de culturas uma
plataforma que ajuda a construir uma habitação sólida e solidária, aonde se
cruza o trabalho local com o nacional e internacional, como quem deseja arejar
e enriquecer a sua casa. Foi isso que vimos no dia da abertura da Capital Europeia
de Guimarães, que, com o tom solene do Maestro Rui Massena, agregou
instrumentos e pessoas locais e de além fronteiras, tudo numa mesma harmonia.
Oswald Spengler viu nas grandes expressões
culturais como que uma espécie de lei natural ao referir que existe um momento
de nascimento, crescimento gradual, desenvolvimento, lento empobrecimento,
envelhecimento e, como consequência natural deste processo, surgiria a morte.
Para este autor, o Ocidente chegou ao seu fim, como uma pessoa que teve o seu
tempo. Ora, poderíamos perguntar, como chegamos até aqui? Como cavamos a nossa
própria sepultura? Muitos autores apontam o dedo ao vago exercício da razão
crítica, ao culta da técnica, à relatividade, já que deixou de haver qualquer
verdade substantiva que não tenha sido impugnada, facto que levou G. Steiner a
invocar a “nostalgia do Absoluto”. O homem moderno libertou-se de tutelas, de
referências não porque se tenha decidido libertar da Igreja, mas porque as
perdeu de vista, ficando, como consequência, cada vez mais só.
A Capital da Cultura ao potenciar as
diferentes expressões culturais está, por um lado, a não permitir que se perca
o acervo de valores comuns adquiridos ao largo de séculos de história de
vitórias, de sangue e de lágrimas de um povo, por outro lado, está a
revitalizar as estruturas locais, a permitir que se partilhe o que de melhor se
faz, construindo comunidades sólidas, que acreditam que é possível voar mais
alto para superar qualquer crise de identidade. Estou certo de que Portugal
precisa deste ânimo para não sucumbir à certidão de Spengler.
Ora, se o Ocidente está em crise e se, em
parte, conhecemos a sua causa, podemos apontar-lhe o processo de cura, que
passará, a meu ver, pela adesão livre às propostas de Cristo, que se revelou um
Deus próximo das nossas vulnerabilidades. O problema é que, em muitas
circunstâncias, é inconveniente, ou pouco aconselhável, fazer-se uma qualquer
referência a Deus. Sabemos que a este respeito existe um falso argumento que
confunde o secularismo com a imparcialidade ou neutralidade. Por que é que a
exclusão da referência a Deus, à religião ou à Igreja é mais neutral do que a
sua inclusão? Deixando de lado toda a polémica subjacente a esta questão,
interessa-nos aqui apresentar a Igreja não exclusivamente como comunidade
crente, mas como comunidade que oferece uma tradução contemporânea da mensagem
evangélica. E neste contexto, encontramos a Igreja a dialogar com a CEC,
propondo iniciativas como o roteiro religioso, aonde se disponibiliza material
que auxilia a interpretar a arte religiosa, ou o Átrio dos Gentios, que se
propõe ser um espaço de diálogo entre crentes e não crentes.
A Igreja, neste diálogo aberto e concreto com
a CEC, tem a oportunidade de lançar sementes do Reino, rasgar horizontes de
felicidade, comunicar sinais de esperança, enfim, ser uma realidade concreta no
espaço das relações humanas. A Igreja, tal como outrora - porque trás em si
inscrita o diálogo das civilizações -, tem que continuar a ser, também hoje,
fator primário de unidade entre povos e culturas. Daí que a CEC não é estranha
à Igreja, bem pelo contrário, já que, tanto a Igreja como CEC, são genética e
culturalmente universais.
Seria desejável que a CEC, na programação que
tem pela frente, não se fechasse - e não o tem feito -, em conteúdos de
superficialidade, de índole niilista, mas que fizesse propostas culturais
verdadeiramente humanas, esperançadas, que fale da frescura da vida, de forma a
que não construa uma imagem de uma sociedade, neste caso concreto a partir de
Guimarães, enferma, sem memória, perdida no tempo ou sem sentido.
Seria bom que, finda a programação da CEC, se
continuasse abrir horizontes, se encontrassem pessoas motivadas para a cultura,
se entendesse os tambores, pianos, trompetes, fagotes e violinos, se prolongasse
as tertúlias à procura da verdade, se veja películas na praça, se trabalhe o
artesanato, se valorize os escritores e os poetas (…), se procure ver as coisas
tal como são. Assim, a cultura, a que se deseja que a Capital Europeia da
Cultura evoque, deixa de ser, como é tantas vezes no presente, meio de evasão e
símbolo de decadência, para passar a mobilizar a inteligência e purificar o
olhar.
Fonte: Agência Ecclesia
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A espiritualidade da Cruz no Matrimónio: fonte de Vida
O povo de Siroki-Brijeg (pequena cidade próxima de
Medjugorje), tem uma maravilhosa distinção: ninguém se lembra que tenha
existido um só divórcio, entre os seus 13 mil habitantes, nem um caso duma
família que tenha deixado a fé católica!
O segredo é simples: os habitantes croatas têm
mantido a sua fé católica, suportando por causa disso a perseguição dos turcos
durante séculos, e depois dos comunistas. A sua fé está fortemente arraigada no
conhecimento do poder salvador da Cruz de Jesus Cristo.
Esse povo possui uma grande sabedoria, que vem
sabendo aplicar ao Matrimónio e à Família. Eles sabem de que o Matrimónio está
indissoluvelmente ligado à Cruz de Cristo. O sacerdote diz-lhes: “Encontraste a
tua cruz. É uma cruz para amar, levá-la contigo, uma cruz que não se tira, mas
que se guarda, enterra-se na tua alma”. Quando um casal se prepara para
contrair Matrimónio, não lhes dizem que encontraram a “pessoa perfeita”. Não! A
Cruz representa o Amor Maior e o Crucifixo é o tesouro da casa. Quando os
noivos vão à Igreja, levam o Crucifixo com eles. O sacerdote benze o Crucifixo.
Quando chega o momento de afirmar os seus votos, a
noiva põe a sua mão direita sobre o crucifixo e o noivo põe a sua mão sobre a
dela, de maneira que as duas mãos estão unidas à cruz. O sacerdote cobre as
mãos deles com a sua estola, enquanto proclamam as suas promessas segundo o
rito da Igreja: de serem fiéis um ao outro, nas alegrias e nas penas, na saúde
e na enfermidade, até a morte.
Depois, os noivos não se beijam, mas ambos beijam a
cruz. Se um dos dois abandona o outro, abandona a Cristo na Cruz. Depois da
cerimónia, os recém-casados levam o crucifixo para casa, onde é posto num lugar
de honra. Será para sempre o ponto de referência e o lugar de oração familiar.
Em tempo de dificuldades não vão ao advogado, nem
ao psiquiatra, mas vão juntos diante da cruz em busca da ajuda de Jesus.
Chorarão e abrirão os seus corações, pedindo perdão ao Senhor e um ao outro. E
irão dormir em paz porque no seu coração receberam o consolo e o perdão do
Único que tem o poder para salvar.
Ensinarão os filhos a beijar a cruz cada dia, e a
não irem dormir como os pagãos sem dar graças primeiro a Jesus. Sabem que Jesus
os tem nos Seus braços e não há nada a temer. in catholic.net
Fonte: Senza
Mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2012
«Prestemos
atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24)
Irmãos
e irmãs!
A
Quaresma oferece-nos a oportunidade de refletir mais uma vez sobre o cerne da
vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a
ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e
comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha,
pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo,
este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado
da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos
estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida
numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo
como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do
acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais:
trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena
segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão
da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por
praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras»
(v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar
esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da
comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus
(v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um
ensinamento precioso e sempre atual sobre três aspetos da vida cristã: prestar
atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
«Prestemos
atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O
primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que
significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de
uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a
«observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são
objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12,
24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no
argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc6, 41). Encontramos o
referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus,
quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote
da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa
exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar
atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos
irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o
desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito
pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama
cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o
«guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos
relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do
outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao
próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu,
é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos
casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiroalter ego,
infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade,
brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a
misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo atual
sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal
reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que
na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo»
(Carta enc. Populorum progressio, 66).
A
atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os
seus aspetos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea
perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o
bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sal 119/118,
68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a
comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o
bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se
pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura
adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de
«anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista
Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos
desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom
Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem
assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e,
na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do
pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em
ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com
amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de
carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas
pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias.
Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso
coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que
fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a
experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um
despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos
pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo
entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de
quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento
alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são
ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O
facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem
espiritual. E aqui desejo recordar um aspeto da vida cristã que me parece
esquecido: a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De
forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o
bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade
espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não
o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não
só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu
destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te
amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo
e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda
repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O
verbo usado para exprimir a correção fraterna – elenchein – é
o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma
geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A
tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de
«corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão.
Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles
cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à
mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e
agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a
advertência cristã nunca há de ser animada por espírito de condenação ou
censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira
solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for
surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com
espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser
tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo,
é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos
juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24,
16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1
Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a
ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais
retamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e
corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf.Lc 22,
61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
«Uns
aos outros»: o dom da
reciprocidade.
O
facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que,
reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua
perspetiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade
individual. Uma sociedade como a atual pode tornar-se surda quer aos
sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve
ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva
à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no
bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o
próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1
Cor 10, 33). Esta recíproca correção e exortação, em espírito de
humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os
discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa
comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa
que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida
e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a
nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o
pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja,
corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa
de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas
alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de
amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para
com os outros» (1 Cor 12, 25) – afirma São Paulo –porque somos um e
o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica
prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença
comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão
expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção
aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e
agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente,
continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a
ação do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai
celeste (cf. Mt 5, 16).
«Para
nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na
santidade.
Esta
afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a
considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida
espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto
e fecundo (cf. 1 Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem
como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efetivo sempre maior, «como
a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à
espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa
vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus.
Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de
Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspetiva dinâmica de crescimento
que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à
plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente,
está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de
«pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25,
24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a
realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação
pessoal (cf. Lc 12, 21; 1 Tm 6, 18). Os
mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua.
Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre atual, para tendermos à
«medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio
ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a
bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como
finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo
exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que
todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de
amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no
amor, no serviço e nas obras boas (cf. Heb 6, 10). Este apelo
ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com
votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da
Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica
Vaticano,
3 de novembro de 2011
Benedictus PP. XVI
Fonte: Agência Ecclesia
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
"Quotidie morior"
Dos escritos da B. Isabel da Trindade: Último Retiro, 9º dia
23. Falando a Abraão, Deus dizia: «Caminha na minha presença e sê perfeito». É, pois, este o meio para alcançar esta perfeição que o nosso Pai do Céu nos pede! São Paulo, depois de se ter abismado nestes divinos conselhos, revelava-o muito justamente às nossas almas, escrevendo «que Deus nos escolheu n'Ele antes da criação, para sermos imaculados e santos em Sua presença no amor». É ainda à luz deste mesmo santo que vou esclarecer-me para andar, sem nunca conhecer desvios, nesta senda magnífica da presença de Deus, em que a alma caminha 'a sós com Ele só', conduzida pela «força da Sua dextra», «na protecção das Suas asas, sem temer os pavores da noite, nem a seta que voa a meio da jornada, nem o mal que se infiltra pelas trevas, ou os assaltos do demónio do meio-dia...».
24. «Despojai-vos do homem velho, segundo o qual vivestes na vossa primeira vida, diz-me ele, e revesti-vos do homem novo, que foi criado, segundo Deus, na justiça e na santidade». Eis o caminho traçado; trata-se apenas de se despojar para o percorrer como Deus o entende! Despojar-se, morrer para si mesmo, deixar de se ver a si próprio, parece-me que assim cuidava o Mestre quando dizia: «Se alguém quer vir após Mim, que tome a sua cruz e renuncie a si próprio». «Se viverdes segundo a carne, diz ainda o Apóstolo, morrereis; mas se mortificardes pelo espírito as obras da carne, vivereis». Eis a morte que Deus pede e da qual se diz: «A morte foi absorvida pela vitória». «Ó morte, diz o Senhor, eu serei a tua morte»; quer dizer: Ó alma, minha filha adoptiva, olha-me e perder-te-ás de vista; derrama-te inteiramente no Meu Ser, vem morrer em Mim, para que Eu viva em ti!...
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Sursum Corda!
A nossa Mãe e Mestra - a Santa Igreja - que só quer a felicidade dos Seus filhos, convida-nos a todo o momento, quer na Palavra, quer através de pessoas que são verdadeiramente instrumento de salvação, a convertermos o nosso coração, tão fragilzinho, a Deus nosso Senhor.
Dos escritos autobiográficos de S. Margarida-Maria Alacoque:
«Comecei então a olhar para o mundo e a adornar-me para lhe agradar, procurando divertir-me quanto podia. Mas Vós, ó meu Deus, Vós sois a única testemunha da grandeza e duração da luta espantosa que eu sofria dentro de mim. Nela teria mil e mil vezes sucumbido, se não fosse o auxílio extraordinário da Vossa misericordiosa bondade, cujos desígnios eram muitos diferentes dos que eu ideava no meu coração. Vós me fizestes conhecer bem, nesta batalha como em muitas outras, quão duro e difícil havia de ser o recalcitrar contra o potente aguilhão do Vosso amor, embora a minha malícia e infidelidade me levassem a empregar todas as forças para lhe resistir, e extinguir em mim todos os seus influxos. Mas foi em vão; porque no meio das companhias e divertimentos, me arrojáveis setas tão ardentes, que trespassavam e consumiam o meu coração; e a dor, que sentia, punha-me inteiramente fora de mim.
E não bastando ainda isto a um coração tão ingrato como o meu para o fazer desisir, sentia-me atada e como arrastada à força de cordas, tão fortemente, que por fim era obrigada a seguir aquele Senhor, que me chamava a algum lugar secreto e me dava severas repreensões, porque tinha zelos do meu miserável coração, que sofria perseguições espantosas. E depois de Lhe ter pedido perdão prostrada de face por terra, mandava-me tomar uma longa e áspera disciplina. Mas eu voltava de novo, inteiramente como dantes, às minhas resistencia e vaidades.
Depois, à noite, quando tirava aquelas malditas librés de Satanás, isto é, os vãos enfeites, instrumentos da malícia dele, aparecia-me o meu soberano Senhor, como na flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que as minhas vaidades O tinham reduzido àquele estado; que eu perdia um tempo tão precioso, de que Ele me havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que O atraiçoava e perseguia, depois de Ele me ter dado tantas provas de amor e me ter mostrado todo o Seu desejo de que eu me tornasse semelhante a Ele. Tudo isto se imprimia em mim tão fundamente, e me fazia tão dolorosas feridas no coração, que eu chorava amargamente; ser-me-ía muito dificil explicar tudo quanto sofria e se passava em mim».
E não bastando ainda isto a um coração tão ingrato como o meu para o fazer desisir, sentia-me atada e como arrastada à força de cordas, tão fortemente, que por fim era obrigada a seguir aquele Senhor, que me chamava a algum lugar secreto e me dava severas repreensões, porque tinha zelos do meu miserável coração, que sofria perseguições espantosas. E depois de Lhe ter pedido perdão prostrada de face por terra, mandava-me tomar uma longa e áspera disciplina. Mas eu voltava de novo, inteiramente como dantes, às minhas resistencia e vaidades.
Depois, à noite, quando tirava aquelas malditas librés de Satanás, isto é, os vãos enfeites, instrumentos da malícia dele, aparecia-me o meu soberano Senhor, como na flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que as minhas vaidades O tinham reduzido àquele estado; que eu perdia um tempo tão precioso, de que Ele me havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que O atraiçoava e perseguia, depois de Ele me ter dado tantas provas de amor e me ter mostrado todo o Seu desejo de que eu me tornasse semelhante a Ele. Tudo isto se imprimia em mim tão fundamente, e me fazia tão dolorosas feridas no coração, que eu chorava amargamente; ser-me-ía muito dificil explicar tudo quanto sofria e se passava em mim».
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